Coisas superestimadas – ou como funciona o hype

Hoje em dia, hypar algo é relativamente fácil. Com o auxílio das redes sociais, um pouco de criatividade – ou apelação – e uma dose de sorte, alguns assuntos, coisas e pessoas podem bombar na internet de forma absurda e exagerada. E nada mais irritante que a repetição anencéfala, automática, equivocada. Todos temos listas mentais de coisas que consideramos superestimadas, não é? Na lista a seguir, cito algumas, que não necessariamente são hypes da internet, mas que fizeram por merecer de alguma forma.

10. THE WALKING DEAD

A terceira temporada da série da AMC se iniciou a poucas semanas – e muito bem, por sinal. Por isso, estou dando a ela uma segunda chance; e por isso ela está apenas na décima posição.

The Walking Dead teve uma boa primeira temporada: instigante, emocionante, diferente de tudo o que estava no ar. Na segunda temporada ela virou mais uma série chata, com personagens rasos, intrigas infantis e alguns poucos bons momentos. Aparentemente, na terceira temporada, esses erros estão sendo corrigidos: pouca ênfase nas relações interpessoais e mais atenção aos zumbis. Isso ainda é uma aposta, visto que no penúltimo episódio um novo importante personagem foi adicionado à trama, e as intriguinhas bobas podem voltar. Veremos.

9. BACON

Não me entendam mal, eu adoro bacon. Mas ele sempre existiu, e nunca se falou tanto dele assim. Hoje em dia todo mundo ama bacon, não vive sem bacon, coloca bacon no leite com chocolate e no bolo de cenoura. Não é para tanto! Já diria PC Siqueira: torresmo é muito melhor que bacon!

8. GAME OF THRONES

Referindo-me à série da HBO, e não à série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, que eu não li, julgo que apesar da grandiosidade da produção, em outros quesitos ela deixa a desejar. No intervalo entre a segunda e a terceira temporadas, a trama complexa e os inúmeros personagens dão-me a impressão de se encaixarem melhor na literatura que numa obra audiovisual. Mas não é só isso. Poucos personagens têm nuances de caráter que os tornam realmente interessantes. Ao contrário, a maioria deles pode ser dividida em dois times, os bons e os maus, o que delata a unidimensionalidade de sua concepção.

O segundo grande problema da série, a meu ver, é a forma como os roteiros são construídos. A maior parte do episódio não apresenta conflitos interessantes, que acabam espremidos no final, deixando o gancho de interesse para o próximo, tática a anos utilizada pelas telenovelas brasileiras. Não discordo do uso do gancho; apenas me incomoda que o episódio seja vazio e monótono para melhorar apenas nos últimos minutos. Veremos, daqui a um ano, como a terceira temporada sair-se-á.

7. FERNANDO MEIRELLES

Não tenho absolutamente nada contra a pessoa. Já trabalhei com o Fernando, e ele é o tipo de diretor que cumprimenta todos no set de filmagem, coisa rara, principalmente na publicidade, e que de cara me agradou.

Cidade de Deus

O problema, para mim, é sua obra. Cidade de Deus (2002), o longa que deu a ele projeção internacional, e que recebeu dezenas de prêmios mundo afora, tem diversas qualidades, das quais destaco o trabalho de direção de atores (Fernando e a co-diretora Katia Lund) e preparação de elenco (Fátima Toledo), o roteiro (Bráulio Mantovani), a montagem (Daniel Rezende) e a trilha sonora (Ed Côrtes e Antonio Pinto). A tão falada fotografia de César Charlone considero feita com a mão pesada e a direção de arte do querido Tulé Peak é precisa, mas não se destaca. No geral, o filme soa-me demasiadamente pretensioso e americanóide demais. Fico mais contente quando a linguagem é mais autêntica e menos importada.

Ensaio sobre a Cegueira

Ensaio sobre a Cegueira (2008) é outro exemplo de obra que se sai muito melhor em forma de livro que de filme. Quem leu, sabe. Algumas cenas funcionam melhor com o volume baixo, em forma de frases, e filmá-las pode diminuir seu impacto ou aumentá-lo de forma exageradamente desagradável. É o que acontece com o filme de Fernando.

O Jardineiro Fiel

O Jardineiro Fiel (The Constant Gardener, 2005), considero um filme equilibrado, maduro e correto, mas também não me salta aos olhos.

6. SOFIA COPPOLA

Sofia tem pedigree. Mas além disso, o que ela tem? Competência como cineasta? Sem dúvida. Merece toda a idolatria que lhe é direcionada? De jeito nenhum! Menos de meia dúzia de longas dificilmente certificam se o cineasta será ou não autor de uma obra relevante e imortal. Sofia ainda não me provou isso, e duvido que tenha provado à maior parte de seu público – a despeito do que ele mesmo acredita.

As Virgens Suicidas

As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides, 1999) é provavelmente seu filme mais sincero, mas também o mais falho. Vêem-se nele boas intenções, um certo talento na direção, mas nada memorável.

Encontros e Desencontros

Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003) foi, além de sucesso de crítica, sucesso de público, e é até hoje o preferido da maioria dos fãs. O carismático Bill Murray, a meu ver, é a melhor coisa do filme. Scarlett Johansson (de quem falarei mais para frente) é insossa, o que acaba casando bem com o papel. O roteiro tem algo engraçado ou sensível aqui e acolá, mas como um todo, não funciona.

Além disso, tenho sérios problemas com a forma caricata como o povo nipônico é retratado, não pela caricatura em si, mas porque o distanciamento que essa abordagem causa acaba por, ao invés de traduzir os “desencontros”, criar um mundo paralelo, onde, se não são possíveis os encontros, também não são possíveis os desencontros.

Maria Antonieta

O que Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006) nos diz? Que Sofia tem culhões, e por isso a admiro. Infelizmente, arriscar demais significa que o resultado pode ser desastroso, que, na minha opinião é o caso desse filme. Quando a história desses personagens passou a ter menos importância que as qualidades estéticas do filme, ele afundou. É inegável o altíssimo nível alcançado pela direção de arte, figurino e maquiagem. Também é inegável que a escolha da trilha sonora contemporânea é bastante interessante. Por outro lado, tornou-se inegável caracterizar o filme simplesmente como esteta, o que nunca pode ser o objetivo de um cineasta.

5. HOW I MET YOUR MOTHER

A série da CBS está na oitava temporada, mas eu a abandonei na metade da sétima. Por isso, não sei se ela tomou um rumo diferente. De uma sitcom de qualidade no início para um final repetitivo, pouco inteligente e sem-graça, How I Met Your Mother caminha para uma conclusão que deveria ter vindo há anos. A reciclagem das piadas e a falta de assunto forçaram os personagens a tomarem rumos esquisitos e desinteressantes. E a resposta que todos esperamos desde o início da série simplesmente perdeu o sentido – depois de tanto tempo, nem quero mais saber quem é a mãe.

4. A ORIGEM (Inception, 2010)

A Origem tinha tudo para ser um filmaço: um diretor talentoso (Christopher Nolan), um elenco de respeito (Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Marion Cotillard, Michael Caine) e um roteiro que ficou adormecido para ser filmado no momento certo – levando em conta o grau de experiência de Nolan com grandes produções e a possibilidade de sua assinatura poder render um maior orçamento e uma maior bilheteria. De fato, os investimentos publicitários feitos pela Warner Bros foram consequência do sucesso de Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), e grande parte desses investimentos foram voltados, sabiamente, para marketing viral.

Para muitos A Origem é, sim, um filmaço. Aliás, sou a única pessoa que conheço que desgosta do filme. Provavelmente se minhas expectativas em relação a ele não fossem tão altas, certos problemas não incomodariam tanto. Em suma, acho o filme cansativo e com um clímax longo demais, e bom ritmo é algo da qual não abro mão. Além disso, o foco muda muitas vezes, tornando todos eles um pouco interessantes, mas nenhum genial. E a certeza de que esse filme já foi feito antes, com temas e roupagem um pouco diferentes me incomoda profundamente, não pela falta de originalidade, mas porque não acrescenta nada.

3. SCARLETT JOHANSSON

Desde 2008 Scarlett não investe em um projeto realmente interessante e autoral. Depois de trabalhar com Woody Allen (Match Point – Ponto Final, Vicky Cristina Barcelona) , Brian de Palma (Dália Negra) e Paul Weitz (Em Boa Companhia), passou a priorizar comédias-românticas e filmes de ação, em papéis nem sempre de destaque. Isso talvez mude com os filmes em fase de pós-produção Hitchcock e Under The Skin. Veremos.

De qualquer forma, analisando os seus melhores trabalhos, não consigo destacar nenhuma atuação. Para mim, Scarlett apresenta-se sempre de forma insossa, sem brilho, sem graça. Se a justificativa para o casting for sua beleza, novamente não concordo. Acho que Hollywood oferece atrizes muito mais talentosas e bonitas que Scarlett, e realmente considero a admiração que ela recebe infundada.

2. PSY – GANGNAM STYLE

O vídeo de Gangnam Style, do artista sul-coreano PSY, já está com mais de 665 milhões de acessos no YouTube, sendo um recordista reconhecido pelo Guiness Book. Ao que devemos o seu sucesso mundial? Hype, of course. O vídeo é engraçado, PSY é uma figura curiosa, e a música é do tipo que gruda no cérebro. Mas é para tanto? NÃO! Latino já faturou sua grana sem nem mesmo ter os direito autorais, Cauê Moura já zuou o Latino e foi zuado pelo Pânico na TV – e por um anônimo que parodiou a paródia da paródia da paródia -, agora podemos mudar de assunto, certo?

1. NUTELLA

A Nutella é fabricada no Brasil desde 2005. Antes de ser fabricada aqui, era atribuído a ela o hype típico de produtos importados, fora de alcance, caros. Mas, vocês se lembram do Io-iô Crem, dos anos 80 e 90? Não consigo me lembrar quem era o fabricante desse genérico, mas sei que ele voltou a ser fabricado por aqui pela Hershey’s, com o nome de Io-iô Nutricrem, recentemente.

Por que não vemos o mesmo entusiasmo nas redes sociais em relação ao Io-iô Nutricrem como vemos para a Nutella? O sabor é muito similar, mas o que importa é o hype, não é mesmo?

A realidade é que ambos são produtos lotados de açúcar e gorduras vegetais, com uma adição mínima de cacau e avelãs. Na Itália, país de origem do produto, ele é proibido por lei de ser comercializado sob o nome de “creme de chocolate”, por possuir quantidades de cacau abaixo das necessárias para receber esse título. Ou seja, é o típico alimento que agrada crianças, doce, gorduroso e de qualidade duvidosa. Por que usar Nutella como ingrediente principal de bolos, tortas, mousses e biscoitos se podemos usar chocolate e avelãs de verdade? Passar no pão é uma coisa; venerar como o melhor doce e ingrediente para sobremesas, é outra.

E você? Qual é o seu top “superestimados”?

14 Respostas para “Coisas superestimadas – ou como funciona o hype

  1. Juliana, acho que foi um dos seus melhores posts. Adorei sua lista. Mais uma pessoa a achar Origem muiiiiito chato, que bom! Vou pensar em alguns. O primeiro que me vem a cabeça é o game Angry Birds e derivados. Abços
    Heloisa

    • Olá, Heloisa!
      Obrigada!
      Boa, Angry Birds é super superestimado! Uma série de joguinhos bestas (sociais, de celular) são superestimados, mas até consigo entender que as pessoas não gostem tanto deles assim; o problema é que eles são feitos para viciar… Minha opinião!
      Espero que continue acompanhando e comentando!
      Beijos.

  2. Acho Frozen, Starbucks, Paris, bandeira da Inglaterra e A culpa é das estrelas superestimados. O pessoal que enobrece o gênero Metal e suas bandas, também. O povo que começou a defender, até a última gota de suor, Dilma e Aécio (PT e PSDB) só por causa do embate do segundo turno. Eles se tornaram ídolos. Não é pra tanto, né, Brasil.
    Medicina, Engenharia e Direito seguem na minha lista.

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