21 filmes para assistir antes do fim do mundo – Parte 2

Se você já passou pela primeira parte dessa lista, corra para assistir aos dez filmes restantes antes do fim do mundo!

O FILHO (LE FILS, 2002)

Olivier Gourmet (em primeiro plano) como Olivier e Morgan Marinne como Francis

Olivier Gourmet (em primeiro plano) como Olivier e Morgan Marinne como Francis

Olivier (Olivier Gourmet) é carpinteiro e perdeu o filho há cinco anos. A perda e o inconformismo de Olivier levaram ao fim de seu casamento. Um dia, Francis (Morgan Marinne), o garoto que assassinou seu filho, alheio ao fato de ser Olivier o pai do menino que matou, pede-lhe um emprego. Olivier, por sua vez, reconhece Francis, e o aceita como seu aprendiz.

Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, roteiristas e diretores desse filme, fazem um trabalho impecável ao revelar, ao espectador, os detalhes da história em doses homeopáticas, de forma eletrizante e surpreendente. A câmera que persegue Olivier, de uma forma que nos vídeo-games se chamaria segunda pessoa – um intermediário entre câmera em primeira pessoa, que no cinema se chama câmera subjetiva, e câmera em terceira pessoa – mais que acompanhar seus passos, entra em sua mente, a fim de que seus sentimentos mais profundos sejam sentidos também pelo espectador. Quanto menos se sabe sobre o filme, melhor é a experiência ao assisti-lo. Por isso, paro por aqui.

CACHÉ (2005)

Daniel Auteuil como Georges e Juliette Binoche como Anne

Daniel Auteuil como Georges e Juliette Binoche como Anne

Georges (Daniel Auteuil) e Anne (Juliette Binoche) vivem uma vida tranquila com o filho, quando fitas cassete anônimas contendo imagens de seu cotidiano passam a ser entregues em sua casa. A câmera não capta imagens íntimas, e apesar de alarmantes, não preocupam o casal, até que começam a chegar acompanhadas de estranhos desenhos. Sem ameaça comprovada, o casal não consegue o auxílio da polícia, e Georges passa a investigar por conta própria quem poderia ser o autor das fitas.

Michael Haneke, roteirista e diretor desse filme, constrói, através de uma tensão crescente e sufocante, uma trama envolvente que deixa o espectador tão alheio às respostas quanto os próprios personagens. Ao não nos revelar o autor das fitas, ou as razões que possivelmente levariam alguém a essa prática, a agonia do personagem torna-se imensa, mesmo que retratada de maneira contida. A forma como Haneke manipula a passagem de tempo e a classe com que apresenta os fatos eleva esse thriller a um patamar especial.

UM PLANO SIMPLES (A SIMPLE PLAN, 1998)

Billy Bob Thornton como Jacob, Bill Paxton como Hank e Brent Briscoe como Lou

Billy Bob Thornton como Jacob, Bill Paxton como Hank e Brent Briscoe como Lou

Hank (Bill Paxton) vive com a esposa numa pequena cidade em Minnesota. Um dia, durante uma caçada com seu irmão Jacob (Billy Bob Thornton) e seu amigo Lou (Brent Briscoe), descobre uma avião acidentado. O piloto está morto e a única carga que encontram é uma mala com milhões de dólares. Os três decidem ficar com o dinheiro, mas por segurança decidem guardá-lo por alguns meses antes de utilizá-lo. Por insegurança e ingenuidade, os três acabam por se enveredarem numa série de mentiras e, o que a princípio mostrou-se como uma boa escolha, passa a ser questionado.

Depois do cult The Evil Dead (1981) e outros filmes de terror – além do faroeste moderninho Rápida e Mortal (The Quick and The Dead (1995) -, Sam Raimi surpreende com um thriller dramático, digamos, comum. Com narrativa e estilo mais amenos e pouco pretensiosos, Um Plano Simples – cujo plano, de fato, passa longe de simples – é simples, de uma certa forma, como o seu título sugere: homens ordinários tem uma ideia que a princípio parece boa, mas que logo revela-se uma criadora de problemas em cadeia. Apesar disso, o filme é conduzido com muita competência e desenvoltura e, premiado com uma atuação brilhante de Billy Bob Thornton, e assim confirma a tese mais repetida desse blog: histórias simples, quando bem contadas, rendem grandes filmes.

LOUCA OBSESSÃO (MISERY, 1990)

Kathy Bates como Annie e James Caan como Paul Sheldon

Kathy Bates como Annie e James Caan como Paul Sheldon

Paul Sheldon (James Caan) é um escritor de sucesso. Após terminar seu último romance numa cidade afastada, onde sempre se hospeda para escrever, Paul sofre um acidente de carro a caminho de Los Angeles, e é resgatado por Annie (Kathy Bates), uma enfermeira e fã da obra de Paul. Annie mostra-se, a princípio, prestativa e dedicada na recuperação de Paul, que quebrou ambas as pernas no acidente. Paul permite que Annie leia seu manuscrito e quando ela descobre que sua série favorita irá terminar com a morte da protagonista – Misery, do título original -, passa a tratar Paul como prisioneiro, a fim de que ele ressuscite sua personagem favorita.

Misery é uma adaptação do romance homônimo de Stephen King, de 1987, dirigida por Rob Reiner, mais conhecido por filmes menos sombrios, por assim dizer, como Conta Comigo (Stand by Me, 1986) e Harry e Sally (When Harry Meet Sally…, 1989). Louca Obssessão pode ser a ovelha negra de sua filmografia, mas certamente é um dos grandes filmes de sua carreira. O filme se passa quase inteiramente dentro da casa de Annie, e, no entanto, tem uma dinamicidade impressionante. O fato, aliás, de se passar na maior parte do tempo dentro de um cativeiro, aproxima-nos da experiência assustadora de Paul. Como bônus, ganhamos atuações fantásticas de James Caan e Kathy Bates – ganhadora do Oscar por esse papel.

GOSFORD PARK (2001)

gosford-park

Em 1932, numa cidade interiorana da Inglaterra, uma grupo de distintos membros da alta sociedade e alguns convidados especiais reúnem-se para um fim de semana de caçadas. Cada convidado tem suas motivações obscuras para comparecer ao evento, e à medida que as tensões crescem entre eles, todos tornam-se suspeitos por um misterioso crime que tomará lugar na mansão subitamente.

O diretor Robert Altman, é reconhecidamente um mestre na arte de articular histórias paralelas e personagens complexos. Em Gosford Park não é diferente: o numeroso e talentoso elenco, onde destacam-se Maggie Smith, Helen Mirren, Kristin Scott Thomas, Emily Watson, Michael Gambon e Kelly Macdonald, dá vida a personagens cheios de segredos e segundas intenções, que não somente levarão à morte de um deles, mas trarão à tona histórias nunca antes reveladas. Para contar essa história de mistério, Altman utiliza-se de dois núcleos principais: os senhores e os criados. Correndo paralelamente, é interessante assistir à evolução de ambos os núcleos, a princípio corriqueira. Conforme vão se desenrolando os fatos, os núcleos aproximam-se de maneira irreversível e trágica, unindo essas vidas de maneira antes inimaginável.

OS SUSPEITOS (THE USUAL SUSPECTS, 1995)

Kevin Pollak como Todd, Stephen Baldwin como Michael, Benicio Del Toro como Fred, Gabriel Byrne como Dean e Kevin Spacey como Roger "Verbal"

Kevin Pollak como Todd, Stephen Baldwin como Michael, Benicio Del Toro como Fred, Gabriel Byrne como Dean e Kevin Spacey como Roger “Verbal”

Após um incêndio de um barco, o FBI une-se à polícia local para investigar o que parece ser um caso de tráfico de drogas perpetuado pela máfia. Um dos dois sobreviventes, Roger “Verbal” (Kevin Spacey), um vigarista profissional, é chamado para depor, e exige imunidade para tal. O filme desenrola-se através de flashbacks narrados por Verbal, que contam como ele e mais quatro criminosos uniram-se para um roubo e acabaram nas mãos do mais temido mafioso da atualidade – e no barco incendiado.

Os Suspeitos é o segundo longa de Bryan Singer, e o primeiro a colocá-lo no mapa. Com um modesto orçamento de 6 milhões de dólares, o filme tornou-se um cult, e fez por merecer. No melhor estilo neo-noir, Os Suspeitos cria uma atmosfera misteriosa, mas dinâmica, e utilizando-se de flashbacks para contar uma história, faz-nos acreditar numa das mais complexas tramas policiais já vista. Além do ótimo roteiro, o competente elenco, com destaque para Kevin Spacey, que ganhou por esse papel o Oscar de Ator Coadjuvante, e a excelente montagem fazem de Os Suspeitos um dos grandes filmes policiais dos últimos anos.

VIDAS EM JOGO (THE GAME, 1997)

Michael Douglas como Nicholas

Michael Douglas como Nicholas

Nicholas (Michael Douglas) é um rico e solitário investidor. O foco nos negócios o afastaram da família, e restou-lhe apenas uma relação distante com a ex-mulher e o irmão mais novo, Conrad (Sean Penn). À medida que seu 48º aniversário se aproxima, as memórias do suicídio de seu pai retornam, e o presente de seu irmão não parece lhe animar. Conrad, alegando que o irmão não poderia ganhar nada que já não possua, oferece-lhe um vale para participar do “Jogo”. Após comparecer à empresa que oferece o serviço, Nicholas é recusado, mas, quando menos espera, estranhos e assustadores acontecimentos iniciam-se em seu cotidiano, fazendo-o questionar-se se fazem parte do tal “Jogo” ou não.

Depois de Se7en – Os Sete Crimes Capitais (Se7en, 1995) sucesso de crítica e público, David Fincher dirigiu Vidas em Jogo, que não alcançou o mesmo sucesso, mas é, a meu ver, um grande filme. O intrigante roteiro associado à mão talentosa de Fincher resultam num thriller crível, asssustador e emocionante, elevado a outro nível pelas ótimas atuações de Douglas e Penn. Ainda que baseado na fórmula de reviravoltas e revelações no final do filme, a trama funciona por entreter e, ao mesmo tempo, ser tratada de maneira séria, mas divertida.

FIM DE CASO (THE END OF THE AFFAIR, 1999)

Julianne Moore como Sarah e Ralph Fiennes como Maurice

Julianne Moore como Sarah e Ralph Fiennes como Maurice

Em 1946, Maurice (Ralph Fiennes) contrata, a pedido do amigo Henry (Stephen Rea), um detetive particular para seguir sua esposa, Sarah (Julianne Moore), que ele desconfia estar tendo um caso. Ironicamente, Sarah estava tendo um caso, mas há dois anos atrás, e com o próprio Maurice. Com o término súbito do caso, Maurice tornou-se amargo, e aproveita para descobrir, através do detetive particular, como Sarah está vivendo a vida agora que eles não mantêm mais contato.

O filme é construído em cima de flashbacks de dois pontos de vista diferentes. No início do filme, acompanhamos a história do ponto de vista de Maurice. Através dele, sabemos que Sarah terminou o caso abruptamente, aparentemente sem razão, apesar do amor que ambos sentiam um pelo outro. Num segundo momento, somos apresentados à história do ponto de vista de Sarah, o que obviamente amplia nossa perspectiva e entendimento da história, e traz explicações de forma inesperada e emocionante. Além do ótimo roteiro, o filme é visualmente deslumbrante: palmas para os ótimos trabalhos de  direção de arte e figurino.

LOUCAMENTE APAIXONADOS (LIKE CRAZY, 2011)

Felicity Jones como Anna e Anton Yelchin como Jacob

Felicity Jones como Anna e Anton Yelchin como Jacob

Anna (Felicity Jones) é um estudante inglesa com um visto americano prestes a vencer. Quando ela conhece Jacob (Anton Yelchin), uma paixão forte a impede de voltar para casa na data correta. Antes de retornar para a Inglaterra, Anna e Jacob decidem manter um relacionamento à distância. Quando Anna consegue voltar para os EUA para visitar Jacob, é barrada por conta da violação de seu visto anterior, e retorna para a Inglaterra. Embora seja da vontade de ambos, Anna e Jacob enfrentam dificuldades ao tentarem manter o relacionamento ativo, enquanto aguardam pelas decisões legais relacionadas à permanência de Anna nos EUA.

Loucamente Apaixonados poderia ser um romance como outro qualquer. Mas não é. A forma como o amor entre Anna e Jacob evolui e se modifica, não apenas por conta da distância, mas porque eles crescem, suas carreiras modificam-se, e, finalmente, porque o amor não é um sentimento imutável, é bastante verossímil. Além disso, a história é tratada com extrema delicadeza, e filmada de maneira singela, porém sincera, e sempre envolvente, o que torna esse filme uma das grandes boas surpresas do ano passado.

ANTES DO AMANHECER (BEFORE SUNRISE, 1995) E ANTES DO PÔR-DO-SOL (BEFORE SUNSET, 2004)

Julie Delpy como Celine e Ethan Hawke como Jesse

Julie Delpy como Celine e Ethan Hawke como Jesse

Celine (Julie Delpy) é uma francesa, retornando para Paris após visitar os avós. Jesse (Ethan Hawke) é uma americano desembarcando em Viena para retornar para casa. Ambos conhecem-se no trem, e decidem passar o dia juntos. Conforme Celine e Jesse visitam a cidade e matam o tempo, suas conversas evoluem de amenidades e ideias sobre assuntos diversos para diálogos mais íntimos. A noção de que este é o único dia que passarão juntos faz com que se sintam mais à vontade para compartilharem segredos, e uma tensão sexual aflora.

Nove anos depois, Jesse tornou-se um escritor e seu recém-lançado romance, inspirado no dia que passou com Celine em Viena, é um best seller. Durante uma turnê para promover o livro na Europa, Jesse reencontra-se, por acaso, com Celine, pela primeira vez após Viena. Com apenas uma hora para dirigir-se ao aeroporto e retornar para casa, Jesse convida Celine para passarem esse tempo juntos.

Richard Linklater, diretor e roteirista de ambos os filmes, privilegia os diálogos, como em Waking Life (2001), em detrimento da ação. As conversas entre Jesse e Celine são suas únicas ferramentas para transmitir ao público suas personalidades, suas histórias pregressas, as sensações que estão experimentando e os sentimentos que passam a nutrir um pelo outro, e sempre de maneira extremamente prazerosa. Como em Waking Life, os personagens filosofam e expõem com incrível franqueza seus pontos de vista sobre diversos assuntos, mas, ao contrário de Waking Life, as conversas são acompanhadas com muita facilidade, o que torna a experiência de assistir aos filmes um tanto quanto aprazível. No entanto, os filmes diferem-se na forma como são concluídos. No primeiro filme, a idade dos personagens e o momento de suas vidas permitem-lhes que mantenham-se esperançosos quanto ao que está por vir. Ao contrário, no segundo filme, com as vidas encaminhadas e mais pragmáticos, Celine e Jesse sabem que aquele dia não levará a uma mudança de rumos significativa. Pelo menos é no que o autor do filme nos faz acreditar…

6 Respostas para “21 filmes para assistir antes do fim do mundo – Parte 2

  1. Da lista só não assisti aos filmes ‘O FILHO (LE FILS, 2002’) e ‘LOUCAMENTE APAIXONADOS (LIKE CRAZY, 2011)’. Todos os outros são realmente muito bons. Agora, no quesito “assistir antes do fim do mundo”, pela temática especificamente, acho que numa lista criada por mim só estariam: ANTES DO AMANHECER (BEFORE SUNRISE, 1995), ANTES DO PÔR-DO-SOL (BEFORE SUNSET, 2004) e VIDAS EM JOGO (THE GAME, 1997), por serem filmes existencialistas em suas essências (São filmes que realmente te fazem pensar no rumo que se está dando á vida). XD

  2. Assisti ao filme “O Filho”! Gente, mas que sufoco, hein? O filme é… Claustrofóbico? Acho que essa é a mulher palavra, já que chamar de ‘suspense’ seria exagero. Gostei bastante. Sensível, mas muito seco. A cada cena você se sente como o protagonista: preso num mundo incompleto (sem filho, sem esposa… Vivendo para o trabalho). Enfim, muito, muito bom! P.S: adoro também a tradição do cinema europeu de começar os filmes de um ponto x da vida do personagem e terminar num ponto y (já que a vida vai de A a Z, e filme nenhum tem como abranger isso tudo de forma satisfatória). É como se o final estivesse dizendo: e a vida continua…

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